Medidas alteram procedimentos envolvendo goleiros, substituições, atendimentos médicos, diálogo com a arbitragem e atuação do VAR; mudanças foram inspiradas nas novas regras internacionais
O futebol brasileiro inicia uma nova etapa a partir deste mês. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) aprovou, em conjunto com representantes dos clubes das Séries A e B, um pacote de dez mudanças que modifica procedimentos importantes durante as partidas e amplia o combate à chamada “cera”.
As medidas passam a ser adotadas nas competições nacionais a partir da 23ª rodada dos Campeonatos Brasileiros das Séries A e B, além da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro Feminino A1. A decisão foi tomada na segunda-feira (10), durante reunião realizada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Mais do que uma alteração pontual no regulamento, a iniciativa representa uma tentativa de aproximar o futebol brasileiro das transformações promovidas internacionalmente pela International Football Association Board (IFAB), órgão responsável pelas Leis do Jogo. Parte dessas regras já havia sido testada e utilizada na Copa do Mundo de 2026.
A estratégia da CBF tem como principal objetivo aumentar o tempo de bola em jogo, reduzir paralisações consideradas desnecessárias e tornar as partidas mais dinâmicas. A entidade trabalha com a expectativa de acrescentar pelo menos 6 minutos e 22 segundos de bola rolando por partida.
Goleiros terão oito segundos para repor a bola
Uma das mudanças que mais deverá interferir na rotina das partidas envolve os goleiros.
O jogador terá oito segundos para soltar a bola depois de assumir o controle com as mãos. Caso ultrapasse o limite, o adversário será beneficiado com um escanteio, e não mais com uma cobrança de falta indireta.
A regra já integra as Leis do Jogo 2026/27 da IFAB. O árbitro deverá sinalizar visualmente a contagem regressiva dos últimos cinco segundos.
Na prática, a medida aumenta consideravelmente o risco para equipes que utilizam a demora do goleiro como estratégia para administrar uma vantagem no placar.
Lateral e tiro de meta também terão contagem regressiva
A preocupação com a demora na reposição da bola não ficará restrita aos goleiros.
O jogador terá cinco segundos para realizar uma cobrança de lateral depois de assumir a posse da bola para a execução. Caso o tempo seja excedido, a equipe adversária ficará com a cobrança.
O mesmo princípio será aplicado aos tiros de meta. Depois da autorização do árbitro, haverá cinco segundos para colocar a bola novamente em jogo. Se o limite for ultrapassado, será concedido escanteio ao adversário.
A própria IFAB já prevê a contagem visual de cinco segundos para situações de atraso deliberado em laterais e tiros de meta.
Substituído terá dez segundos para deixar o campo
Outra mudança ataca uma situação recorrente no futebol: a demora de jogadores substituídos para deixar o gramado.
A partir da nova regulamentação, o atleta terá dez segundos para sair do campo e deverá fazê-lo pelo ponto mais próximo da linha lateral ou de fundo.
A alteração foi incorporada às medidas internacionais aprovadas pela IFAB com o objetivo de reduzir interrupções e evitar que substituições sejam utilizadas como mecanismo para consumir tempo.
Atendimento médico: jogador ficará um minuto fora
O protocolo de atendimento médico também muda.
Quando um jogador precisar receber atendimento dentro do campo, ele deverá permanecer fora da partida por um minuto antes de retornar.
A exceção é o goleiro. Quando o arqueiro receber atendimento, um jogador de linha indicado pela comissão técnica ou pelo capitão também deverá permanecer fora pelo mesmo período.
A intenção é impedir que atendimentos médicos sejam utilizados de forma estratégica para interromper o ritmo do adversário ou ganhar tempo em momentos decisivos.
Só o capitão poderá falar com o árbitro
Uma das mudanças que promete provocar maior impacto no comportamento dos jogadores é a limitação do diálogo com a arbitragem.
A orientação estabelece que apenas o capitão poderá se aproximar do árbitro para discutir decisões.
A medida faz parte do movimento internacional conhecido como “Only the captain”, criado para reduzir cercos à arbitragem, protestos coletivos e situações em que vários jogadores pressionam simultaneamente o árbitro.
Pelas diretrizes da IFAB, jogadores que desrespeitarem a determinação podem ser advertidos disciplinarmente. A regra busca também aumentar a responsabilidade dos capitães na condução de seus companheiros.
“Protocolo Vini Jr.” endurece punição para provocações
Entre as medidas de maior repercussão está o chamado “Protocolo Vini Jr.”.
A nova orientação prevê expulsão quando um jogador cobre deliberadamente a boca ao se comunicar com um adversário de maneira provocativa, depreciativa ou inflamatória.
A medida busca dificultar a utilização do gesto para esconder insultos, provocações ou manifestações ofensivas durante discussões entre jogadores.
É importante destacar que não se trata de uma punição automática para qualquer atleta que leve a mão à boca. O contexto da comunicação e a intenção provocativa são determinantes para a aplicação da sanção.
A mudança faz parte das novas disposições disciplinares aprovadas internacionalmente para a temporada 2026/27.
VAR ganha nova possibilidade de intervenção
O árbitro de vídeo também terá sua área de atuação ampliada.
Uma das novas possibilidades é a revisão de um segundo cartão amarelo quando a decisão resultar em expulsão e houver evidência clara de que a advertência foi aplicada de maneira incorreta.
Até então, o protocolo do VAR não permitia essa intervenção em uma segunda advertência.
A IFAB aprovou especificamente a possibilidade de revisão de cartões vermelhos decorrentes de um segundo amarelo claramente equivocado. A intervenção, porém, não permite ao VAR revisar qualquer segundo amarelo simplesmente porque existe dúvida sobre a decisão. É necessário que haja um erro claro.
Escanteios também poderão entrar no radar do VAR a partir de 2027
Outra mudança, porém, ficará para uma segunda etapa.
A partir de 2027, a competição poderá permitir que o VAR revise um escanteio concedido de maneira claramente equivocada, desde que a correção possa ser feita imediatamente e sem atrasar a cobrança.
O objetivo é evitar que um erro de arbitragem na saída da bola resulte diretamente em uma situação decisiva, como gol ou pênalti.
A IFAB estabeleceu essa possibilidade como uma opção para os organizadores das competições, e não como uma obrigação universal.
As dez mudanças aprovadas pela CBF
- Goleiros terão oito segundos para permanecer com a bola nas mãos. Se ultrapassarem o limite, será marcado escanteio para o adversário.
- Cobranças de lateral deverão ser executadas em até cinco segundos.
- Tiros de meta deverão ser cobrados em até cinco segundos após a autorização do árbitro.
- Jogadores substituídos terão dez segundos para deixar o campo.
- Atletas que receberem atendimento médico dentro do gramado deverão permanecer fora por um minuto.
- Quando o goleiro receber atendimento, um jogador de linha também deverá ficar fora durante um minuto.
- Apenas o capitão poderá se dirigir ao árbitro para discutir decisões da arbitragem, dentro das regras estabelecidas para a comunicação.
- Cobrir intencionalmente a boca durante uma comunicação provocativa, depreciativa ou inflamatória com um adversário poderá resultar em cartão vermelho.
- O VAR poderá revisar uma segunda advertência claramente equivocada quando ela resultar em expulsão.
- A partir de 2027, poderá ser permitida a revisão de escanteios claramente marcados de forma incorreta, desde que a correção seja feita imediatamente e não atrase a cobrança.
CBF promete investimento de R$ 200 milhões na arbitragem
As mudanças fazem parte de um projeto mais amplo de reformulação da arbitragem brasileira.
A CBF anunciou investimento estimado em R$ 200 milhões entre 2026 e 2027 para profissionalização, capacitação e modernização do setor. O pacote está associado à discussão de um novo regulamento nacional e à preparação das competições para a temporada 2027.
O movimento ocorre em um momento de forte pressão sobre a arbitragem brasileira. A entidade pretende utilizar parte dos investimentos para melhorar a formação dos profissionais e adaptar o trabalho dos árbitros às novas exigências tecnológicas e regulamentares.
Mudança de comportamento será tão importante quanto a regra
O grande desafio da CBF, entretanto, não está apenas em publicar novas determinações.
A aplicação prática será o principal teste.
Goleiros precisarão modificar hábitos construídos durante décadas. Jogadores terão de abandonar a prática de cercar árbitros em decisões polêmicas. Atletas substituídos precisarão deixar o gramado rapidamente. Comissões técnicas terão de adaptar procedimentos em atendimentos médicos.
Na arbitragem, o desafio será ainda maior: aplicar os novos protocolos de maneira uniforme, sem transformar cada interrupção em uma nova discussão.
O pacote aprovado pela CBF representa, portanto, uma tentativa de acelerar o jogo e diminuir as chamadas “paradinhas” que historicamente fazem parte do futebol brasileiro.
A mudança mais profunda, porém, poderá acontecer fora do papel: na cultura de jogadores, treinadores e árbitros.
Se a aplicação for rigorosa e uniforme, o torcedor poderá perceber partidas com menos tempo desperdiçado, reposições mais rápidas e menor pressão coletiva sobre a arbitragem.
O futebol brasileiro começa, assim, uma nova fase de adaptação às regras internacionais — e a partir das próximas rodadas será possível medir, dentro de campo, o tamanho real dessa transformação.
Ricardo Lima / Fontes: CBF, IFAB e CNN Brasil.


