Pesquisas mostram que preço dos alimentos, contas básicas, juros e dívidas estão entre os principais fatores que pressionam o orçamento. Em Goiás, reflexos aparecem no consumo e no crédito.
O orçamento das famílias brasileiras continua sob pressão. O preço dos alimentos, o aumento das contas básicas, os juros elevados e o acúmulo de dívidas formam uma combinação que vem reduzindo a margem financeira de milhões de brasileiros e mudando hábitos de consumo.
Dois levantamentos divulgados em setembro ajudam a dimensionar esse cenário. Pesquisa Datafolha mostra que 49% dos brasileiros relatam algum grau de insuficiência financeira. 34% afirmam que o dinheiro não é suficiente e às vezes falta, enquanto 15% dizem que a renda é muito baixa e traz muitas dificuldades, outros 42% afirmam que conseguem viver exatamente com o que recebem, sem sobra.
Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, realizada entre 17 e 22 de setembro com 5.015 brasileiros, o aumento do preço dos alimentos aparece como o principal fator de impacto negativo sobre a situação financeira das famílias, citado por 44,2% dos entrevistados. Na sequência aparecem o aumento das contas básicas, com 32,1%, e as dívidas acumuladas e os juros altos, com 25%.
O levantamento permite até duas respostas, por isso os percentuais não devem ser somados como se representassem grupos exclusivos.
Centro-Oeste sente o peso das dívidas
O cenário ganha uma dimensão regional importante.
Segundo os dados da AtlasIntel, 30,1% dos entrevistados do Centro-Oeste apontaram dívidas acumuladas e juros altos como um dos fatores que mais prejudicam a situação financeira familiar. O número coloca a região entre aquelas em que o problema aparece com maior intensidade.
É importante ressaltar que esse percentual não significa que 30,1% da população esteja endividada. Trata-se da parcela dos entrevistados que identificou dívidas e juros altos como um dos principais fatores de pressão sobre o orçamento.
A diferença é importante porque mostra não apenas a existência de dívidas, mas principalmente o peso que elas passaram a exercer sobre a vida financeira das famílias.
No cotidiano, esse aperto pode significar menos dinheiro para compras, lazer, investimentos e formação de reserva financeira. Para muitas famílias, o crédito passa a funcionar como uma extensão da renda e não apenas como instrumento para aquisição de bens de maior valor.
O preço da comida continua no centro da preocupação
Entre todos os fatores analisados pela AtlasIntel, o preço dos alimentos foi o que mais apareceu nas respostas.
Para 44,2% dos entrevistados, a alta dos produtos de supermercado é o fator que mais impacta negativamente as finanças familiares. As contas básicas, como luz, água, gás e internet, aparecem em segundo lugar, com 32,1%. Dívidas acumuladas e juros altos vêm logo depois, com 25%.
O resultado ajuda a explicar uma mudança que pode ser percebida no comportamento dos consumidores: a busca por alternativas mais baratas, promoções, compras planejadas e redução de despesas consideradas não essenciais.
Em outras palavras, quando uma parcela maior da renda é direcionada para alimentação, moradia, serviços básicos e pagamento de dívidas, sobra menos dinheiro para movimentar outros setores da economia.
Brasil chega a 83,9 milhões de inadimplentes
Os dados da Serasa também mostram a dimensão do problema.
O Brasil encerrou julho de 2026 com 83,9 milhões de pessoas inadimplentes. O número representa 51% da população adulta e envolve mais de 348,3 milhões de dívidas em aberto, que somavam R$ 586,4 bilhões.
O valor médio devido por consumidor inadimplente também chama atenção. Em levantamento anterior divulgado pela Serasa, a média chegou a R$ 6.920,63.
O quadro mostra que o problema não está restrito a uma pequena parcela da população. O endividamento alcança diferentes faixas de renda e pode comprometer a capacidade de consumo das famílias por longos períodos.
Crédito caro aumenta o risco
Quando a renda não consegue acompanhar as despesas, muitas famílias recorrem ao crédito para fechar as contas. O problema é que algumas das modalidades mais acessíveis também estão entre as mais caras.
Dados do Banco Central mostram que, em março de 2026, a taxa média do crédito rotativo do cartão chegou a 428,3% ao ano. No cartão parcelado, a taxa estava em 192,1% ao ano. O cheque especial apresentava 137,9% ao ano, enquanto o crédito pessoal não consignado alcançava 117,1% ao ano.
Na prática, isso significa que uma dívida aparentemente pequena pode crescer rapidamente quando permanece por muito tempo em modalidades de crédito de alto custo.
O Banco Central também registrou que o endividamento das famílias havia alcançado 49,9% da renda em fevereiro, enquanto o comprometimento da renda com dívidas chegou próximo de 30%.
Goiás no radar
Para Goiás, o tema merece atenção especial.
O Estado está inserido em uma região economicamente dinâmica, com forte presença do agronegócio, comércio e serviços. Ao mesmo tempo, o aumento do custo de vida e do crédito pode atingir diretamente o consumo das famílias e, consequentemente, o desempenho de pequenos negócios e do comércio.
Levantamento da FecomercioSP sobre o crédito em atraso mostrou que o Centro-Oeste apresentou a maior variação regional no primeiro quadrimestre de 2026, com crescimento de 69,3% no volume de crédito em atraso. Goiás registrou alta de 81,3% no mesmo período.
Os números ajudam a entender por que o assunto ultrapassa o ambiente das instituições financeiras e chega às ruas, aos supermercados, ao comércio e às pequenas empresas.
Quando o consumidor precisa direcionar uma parcela maior da renda para dívidas, juros e despesas básicas, o dinheiro circula menos em outros setores.
Consumo mais cauteloso
O atual cenário também pode provocar mudanças permanentes nos hábitos de consumo.
Famílias que antes compravam com maior frequência podem passar a pesquisar preços, reduzir o uso do cartão, adiar compras e priorizar produtos essenciais.
Para os comerciantes, isso representa um desafio adicional. A necessidade de oferecer preços competitivos e condições de pagamento acessíveis aumenta justamente em um momento em que os custos operacionais também pressionam as empresas.
Ao mesmo tempo, surgem oportunidades para negócios capazes de oferecer produtos e serviços mais econômicos. O consumidor passa a valorizar ainda mais promoções, kits, produtos de menor preço e alternativas que permitam economizar sem abrir mão das necessidades básicas.
Um sinal de alerta para as famílias
Os números não significam que todas as famílias estejam vivendo uma crise financeira. A própria pesquisa Datafolha mostra que 71% dos entrevistados acreditam que sua situação financeira vai melhorar nos próximos 12 meses.
Esse dado revela uma combinação importante: existe pressão no presente, mas também há expectativa de melhora.
O desafio está justamente em atravessar esse período sem permitir que o crédito caro transforme dificuldades momentâneas em um problema financeiro de longo prazo.
Para especialistas em finanças pessoais, manter controle das despesas, evitar o rotativo do cartão, comparar taxas antes de contratar empréstimos e priorizar a renegociação de dívidas mais caras são medidas que podem reduzir o impacto dos juros sobre o orçamento.
No fim das contas, os números das pesquisas traduzem uma realidade que pode ser percebida no cotidiano: o brasileiro continua trabalhando, consumindo e buscando alternativas, mas precisa fazer cada vez mais contas antes de colocar a mão no bolso.
E no Centro-Oeste, onde o endividamento e o crédito em atraso vêm ganhando espaço nos indicadores, o comportamento das famílias será um dos pontos importantes para acompanhar os próximos meses.
Ricardo Lima / Fontes consultadas: O Hoje, Datafolha, AtlasIntel/Bloomberg, Serasa, FecomercioSP, Folha de S.Paulo e CNN Brasil.

