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    Vacinação completa um ano com 68% da população com duas doses

    @ricardo_limaBy @ricardo_lima17 de janeiro de 2022Updated:20 de fevereiro de 2022Nenhum comentário9 Mins Read
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    Apesar de atritos políticos e atraso no início da campanha, adesão popular ajudou país a alcançar altos índices de imunização.

    Motivo principal para que o Brasil parasse de perder mais de duas mil vidas por dia para a Covid-19 ao longo de quase dois meses, a vacinação completa um ano no país nesta segunda-feira (17).

    Prestes a alcançar 70% da população brasileira com as duas doses (ou dose única), a campanha de imunização foi – e ainda permanece – a responsável pela queda substancial de óbitos – hoje, com média próxima a 130 por dia – e hospitalizações pelo vírus, desafogando os hospitais lotados e amenizando, aos poucos, o estado de colapso que a saúde pública enfrentou no ano passado.

    Objeto de embates entre políticos e campanhas de desinformação, a vacinação começou com calendário atrasado em relação a outros países como Argentina, México e Chile. Porém, evoluiu graças à adesão de uma população já acostumada a outros programas de vacinação de sucesso nas últimas décadas.

    No entanto, além das quase 130 mortes diárias nas últimas semanas, o rápido avanço da variante Ômicron por todo o país preocupa, com riscos de novo colapso na saúde, sinalizando à importância de que a população conclua o esquema vacinal – mais de 20 milhões não voltaram para tomar a segunda dose –, e que os públicos elegíveis procurem pela dose de reforço.

    Após decisão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no mês passado, as crianças de 5 a 11 anos também estão aptas a se imunizar, com os calendários de imunização começando a partir desta semana em várias capitais brasileiras.

    Alvo de atritos na política, imunização começou com atraso

     

    Tal qual outros assuntos relacionados à pandemia, a vacinação contra a Covid-19 no Brasil já era alvo de embates políticos antes de seu início, entre gestores que buscavam reconhecimento pela negociação dos imunizantes e governantes que questionavam sua eficácia mesmo após resultados promissores dos estudos sobre sua eficácia.

    À época, o presidente Jair Bolsonaro chegou a questionar a CoronaVac, hoje uma das vacinas contra o vírus mais aplicadas nos brasileiros, devido ao seu local de origem. “Da China não compraremos. Não acredito que ela transmita segurança para a população pela sua origem. Esse é o pensamento nosso”, disse Bolsonaro um dia após desautorizar a compra de 46 milhões de doses do imunizante da fabricante Sinovac.

    Até a primeira dose aplicada, na enfermeira Mônica Calazans, em Itaquera, zona leste de São Paulo (SP), a demora para a compra das vacinas da Pfizer – com uma recusa à compra de 70 milhões de doses em 2020 – e da Janssen, na entrega de insumos da AstraZeneca e na aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aos imunizantes, em 17 de janeiro, fez o país largar atrasado em relação ao resto do mundo.

    Naquele momento, em meados de janeiro, mais de 50 países já haviam aplicado suas primeiras doses, alguns inclusive entre novembro e dezembro do ano anterior, como Argentina, Chile e México.

    Para Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista, fundador e ex-diretor-presidente da Anvisa, o atraso teve influência significativa em muitas mortes evitáveis. “Infelizmente, muitas pessoas morreram porque a vacinação no Brasil começou tarde demais e demorou muito para engrenar. A única arma que havia era de fato a vacina”, afirma Vecina. Há um ano, pontua o sanitarista, começar a vacinação o quanto antes significava reduzir a mortalidade.

    O médico ainda cita como exemplo um estudo da UFPel (Universidade Federal de Pelotas) e da Universidade Harvard, dos Estados Unidos, que apontou que a vacinação evitou a morte de 43.082 idosos no país.

    “Poderíamos ter começado com um volume alto. Os países desenvolvidos começaram em dezembro, e nós em janeiro com uma quantidade muito limitada de vacinas. Nossa capacidade é de aplicar 30 a 40 milhões de vacinas por mês, apertando seriam até 70 milhões, por termos 38 mil unidades de saúde. Temos condição de já ter vacinado esses 160 milhões de adultos com as duas doses, mas terminamos o ano e ainda não terminamos de vaciná-los”, considera.

    Para além do atraso na imunização, o país assistiu a uma série de casos de fura-filas de vacinas em todo o país. Nas semanas posteriores à primeira aplicação, eram rotineiras as notícias de funcionários públicos, políticos, empresários e seus familiares se imunizando – mesmo não pertencendo a grupos de risco, aqueles que por determinação das autoridades eram prioridade no calendário vacinal.

    Houve, ainda, erros de logística do governo federal, ao enviar em fevereiro 78 mil doses ao Amapá, que deveria receber 2 mil, e 2 mil ao Amazonas, que deveria receber 78 mil.

    Também marcante foi o chamado Caso Covaxin, uma investigação do MPF (Ministério Público Federal), em 16 de junho, que encontrou indícios de irregularidades na aquisição, pelo Ministério da Saúde, de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin.

    O valor dos imunizantes, segundo o órgão, seria 1000% superior ao previsto no início. O ministério cancelou o contrato ao fim de julho e anunciou que utilizaria a quantia prevista para contratar vacinas de outros fabricantes. Semanas antes, a Polícia Federal havia instaurado um inquérito para investigar Jair Bolsonaro por suspeita de prevaricação no caso da compra das doses.

    Apesar de atrasos, adesão da população acelerou vacinação no país

     

    À parte das discussões políticas – e apesar do atraso para o início do calendário de vacinação –, a resposta da população brasileira foi rápida e, atualmente, a adesão do país aos imunizantes contra o coronavírus é considerada alta: 68% da população receberam as duas doses ou dose única, e 76% receberam ao menos a primeira dose.

    Em proporção, a taxa da população brasileira completamente imunizada é superior a Estados Unidos, Rússia e México, por exemplo, que começaram antes a vacinar suas populações, e, mesmo com o atraso, próxima a de países como Alemanha, Reino Unido e França – pouco acima dos 70%, de acordo com a plataforma World In Data.

    País com menor rejeição à vacina contra a Covid na América Latina – 3% de rejeição, contra 8 % de média, segundo estudo do Banco Mundial –, o Brasil tem em sua história recente campanhas de vacinação de sucesso, como no combate à varíola, a poliomielite (paralisa infantil) e no combate à epidemia de febre amarela. Essa tradição colaborou para a adesão dos brasileiros aos imunizantes contra o coronavírus, aponta Gonzalo Vecina.

    “Nossa tradição foi fundamental para que o sucesso que temos e ainda teremos, espero, fosse alcançado. Vamos conseguir agora com a produção da Fiocruz, do IFA no Brasil, ter mais vacinas aqui. Espero que o Butantan consiga chegar no mesmo estágio, com a fábrica que deve estar pronta em fevereiro, além dos testes da Butanvac. Temos ainda conquistas a fazer, e é importante que a gente perceba a evolução da nossa capacidade de produzir vacinas através do nosso desenvolvimento tecnológico, que foi feito apesar do governo brasileiro”, diz o sanitarista.

    A aceitação entre os brasileiros foi suficiente para superar a desinformação produzida no meio político e pela sociedade, de modo geral. No mundo todo, as fake news sobre os imunizantes acompanharam o processo de imunização desde o início.

    Aqui no Brasil, por exemplo, especulou-se que as vacinas baseadas em RNA, como a da Pfizer, alterariam o DNA daqueles que fossem imunizados, que seus efeitos colaterais seriam perigosos, ou até que as doses implantariam microchips nas pessoas. Todos os boatos foram devidamente desmentidos pelos cientistas e as autoridades sanitárias.

    No entanto, embora tenha sido bem recebida no país, a vacinação avançou de forma desigual, sobretudo entre estados da região Norte, nos primeiros meses da pandemia. Alguns desses, inclusive, ainda estão com a imunização atrasada em relação ao restante do país, como Roraima, Amapá, Acre, Tocantins e Amazonas – todos abaixo de 65% de suas populações com o esquema vacinal completo.

    “Alguns estados e governantes foram menos competentes em conseguir uma cobertura vacinal mais adequada. Nos estados mais pobres, particularmente do Norte, como Amazonas, Rondônia, Roraima e Amapá, tem uma situação vacinal pior que o restante do país. A porcentagem de segundas e terceiras doses está muito abaixo do que deveria”, avalia Vecina.

    Para ele, essa baixa cobertura vacinal, com a chegada da Ômicron, deverá implicar num aumento expressivo no número de casos. “Temos uma explosão de casos e quase colapso de novo na rede hospitalar de Manaus. Uma parte desse componente se deve ao fato da baixa cobertura vacinal”, conclui.

    Hoje com quase 70% da população imunizada, país viu queda em mortes e hospitalizações

     

    Findado o primeiro ano do calendário de vacinação contra a Covid-19 no país, pouco mais de 68% dos brasileiros concluíram o esquema vacinal, 75% foram vacinados com ao menos a primeira dose e 15% já receberam o reforço.

    A média móvel de 129 mortes diárias pelo vírus, registrada na última semana, representa 4% da dos 3.125 óbitos por dia em 12 de abril de 2021, a pior média registrada no país durante a pandemia. Entre 17 de março e 10 de maio, o país ficou 55 dias com a média acima de 2.000 mortes diárias.

    A queda gradativa nas mortes e hospitalizações, acompanhada pelo avanço da imunização no país, foi resultado da adesão da população às vacinas. No sentido oposto, aqueles que não se imunizaram são maioria entre os atuais internados em hospitais e UTIs em decorrência do vírus, como afirmou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na última quinta-feira (13).

    Ao longo do ano passado, estudos de vacinação em massa em cidades de menor população ou comunidades, como em Serrana (SP), Botucatu (SP), Viana (ES) e na Ilha de Paquetá, no Rio, já mostravam a efetividade da vacinação para reduzir significativamente as mortes e hospitalizações pelo novo coronavírus.

    Botucatu, por exemplo, viu os casos dispararem 604% após a chegada de variante ômicron no início de 2022, mas registrou uma morte nos últimos dois meses e possui uma pessoa internada pelo vírus, em um leito de enfermaria.

    Gonzalo Vecina comemora a boa adesão à campanha no país, mas acredita que ela não tenha sido acompanhada de uma divulgação adequada por parte do Ministério da Saúde, dos estados e municípios, a fim de chamar as pessoas à vacinação.

    “Infelizmente temos alguns milhões de pessoas que ainda não foram receber a segunda e a terceira dose. A terceira dose é fundamental para fortalecer a possiblidade da produção de anticorpos. Alguns países, como Israel, já estão aplicando a quarta. Já demonstramos que existe adesão da população brasileira, não temos esse clima de negacionismo como existe na Europa e Estados Unidos, com a mesma importância que lá”, pondera.

     

    Fonte: R7 Notícias

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