O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgado nesta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), lança uma sombra preocupante sobre o ensino médico em Goiás e exige reflexão profunda das instituições, gestores públicos e da sociedade. Dos cursos avaliados no estado, 62,5% obtiveram notas 1 ou 2, em uma escala que vai até 5, desempenho considerado insatisfatório pelo próprio Inep.
Entre os resultados que mais causam apreensão está o do Centro Universitário de Mineiros (Unifimes), campus Trindade, que recebeu nota 2. Trata-se de um conceito que sinaliza fragilidades relevantes na formação oferecida aos futuros médicos e que não pode ser tratado como um dado burocrático ou um simples número em uma tabela. O curso de medicina lida diretamente com vidas humanas, e qualquer deficiência no processo formativo tem impacto direto na qualidade da assistência à população.
O Enamed é uma prova anual criada justamente para medir o desempenho dos estudantes e a qualidade do ensino nos cursos de medicina de todo o Brasil. Nesta edição, foram avaliados 351 cursos, com a participação de cerca de 89 mil estudantes, entre concluintes e alunos de outros períodos. Entre os formandos, apenas 67% alcançaram o chamado resultado proficiente, demonstrando conhecimento considerado suficiente. Quase 13 mil concluintes ficaram abaixo desse patamar, um dado que, por si só, já revela a dimensão do problema.
Em Goiás, o contraste entre instituições é evidente. Universidades públicas e tradicionais, como a Universidade Federal de Goiás, a Universidade Federal de Jataí, a Universidade Federal de Catalão, a Universidade Estadual de Goiás em Itumbiara e a Unievangélica, em Anápolis, alcançaram nota 4, indicando desempenho sólido. A PUC Goiás obteve nota 3, intermediária, mas ainda distante do ideal.
Na outra ponta, além da Unifimes em Trindade e Mineiros, ambas com nota 2, aparecem cursos com nota 1, o nível mais baixo da avaliação, como os do Centro Universitário de Goiatuba, do Centro Universitário Alfredo Nasser e de unidades da Universidade de Rio Verde em diferentes municípios. Esse conjunto de resultados revela um quadro estrutural preocupante, especialmente no setor privado e em instituições que expandiram rapidamente seus cursos de medicina nos últimos anos.
A consequência prática para os cursos mal avaliados pode ser dura. O Inep prevê sanções como restrições ao acesso ao Fies e a suspensão de processos de abertura de novas vagas. Embora nem todas as instituições estejam sob supervisão direta do Ministério da Educação, a mensagem é clara: não há mais espaço para a expansão irresponsável do ensino médico sem qualidade comprovada.
Chama atenção, ainda, o fato de que, antes da divulgação dos resultados, um grupo de universidades particulares tentou barrar a publicação do Enamed na Justiça, sem sucesso. A tentativa reforça a necessidade de transparência e de compromisso público com a qualidade da formação médica, acima de interesses institucionais ou financeiros.
No caso específico da Unifimes – Trindade, o resultado deveria servir como ponto de reflexão. Mais do que lamentar a nota, é preciso reconhecer o problema, abrir os dados à sociedade e apresentar um plano concreto de reestruturação acadêmica, pedagógica e assistencial. O silêncio ou a minimização do resultado apenas aprofundam a desconfiança e não contribuem para a melhoria do ensino.
O Enamed não deve ser visto como punição, mas como um instrumento de diagnóstico. Ignorar seus alertas é comprometer o futuro da medicina em Goiás e, sobretudo, a segurança da população que dependerá desses profissionais. O momento exige responsabilidade, humildade institucional e ações efetivas para que a formação médica volte a estar à altura da importância social que carrega.
Veja o resultado de Goiás:
Universidade Estadual de Goiás (UEG) – Itumbiara – 4
Universidade Evangélica de Goiás (Unievangélica) – Anápolis – 4
Universidade Federal de Goiás (UFG) – Goiânia – 4
Universidade Federal de Catalão (UFCAT) – Catalão – 4
Universidade Federal de Jataí (UFJ) – Jataí – 4
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) – Goiânia – 3
Universidade De Rio Verde (Fesurv) – Aparecida – 2
Universidade De Rio Verde (Fesurv) – Rio Verde – 2
Faculdade Morgana Potrich (Famp) – Mineiros – 2
Centro Universitário de Mineiros (Unifimes) – Trindade – 2
Centro Universitário de Mineiros (Unifimes) – Mineiros – 2
Centro Universitário de Goiatuba (Unicerrado) – Goiatuba – 1
Centro Universitário Alfredo Nasser (Unifan) – Aparecida de Goiânia – 1
Universidade De Rio Verde (Fesurv) – Goianésia – 1
Universidade De Rio Verde (Fesurv) – Formosa – 1
Faculdade Zarns – Itumbiara – 1
Ricardo Lima
