Mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro acompanhou pessoalmente os preparativos de uma recepção para o ministro do STF, poucas semanas depois, Banco Master assinou contrato de R$ 131 milhões com escritório da mulher de Moraes
As revelações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ganharam um novo capítulo nesta quarta-feira (30), com a divulgação de mensagens e imagens que detalham um almoço de luxo realizado no fim de 2023, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo.
O encontro ocorreu em 30 de dezembro de 2023, no hotel Six Senses Botanique, e foi organizado por Vorcaro para receber Moraes e outros convidados. O ex-banqueiro não participou pessoalmente do almoço, mas acompanhou à distância praticamente todos os detalhes da recepção por meio de mensagens trocadas com o chef responsável pelo serviço.
Em uma das conversas, Vorcaro chamou Moraes de “meu convidado mais importante até hoje”.
As informações foram reveladas pelo jornal O Globo e posteriormente confirmadas por outros veículos a partir do material extraído do celular de Vorcaro durante as investigações da Polícia Federal. A PF informou oficialmente, em setembro, que entregou aos ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes cópias idênticas dos dados extraídos do aparelho, mantendo o original sob cadeia de custódia.
Um almoço pensado nos mínimos detalhes
O que chama atenção no episódio não é apenas a realização de um almoço privado, mas o nível de cuidado empregado na preparação da recepção.
Segundo as mensagens, Vorcaro orientou o chef José Maria Meira sobre o cardápio, a escolha dos vinhos e até a maneira como os alimentos deveriam ser apresentados aos convidados.
Entre os pratos estavam caviar, vieiras com ovas de salmão, ovo trufado, foie gras com banana, carne dry aged, wagyu e trufas.
Na seleção de bebidas, Vorcaro recorreu à própria adega e pediu rótulos de grande valor e safras antigas. Entre os vinhos mencionados nas conversas estavam La Tâche, Château Haut-Brion, Château Mouton Rothschild e Château Cheval Blanc.
Em determinado momento, o banqueiro demonstrou preocupação até com a maneira como o caviar seria colocado à mesa.
“Essas latas de caviar já na mesa não tá deixando muito pomposo, não?”, questionou ao chef, segundo as mensagens divulgadas.
A preocupação, explicou Vorcaro, era proporcionar um almoço espetacular sem transformar a recepção em algo ostensivamente associado à sua pessoa.
A discrição também fazia parte do roteiro
Outro trecho das conversas ganhou destaque.
Vorcaro pediu ao chef que evitasse mencionar seu nome durante o almoço para não constranger o convidado principal.
“Evitar falar nome, até o meu, pra não constranger o convidado principal”, escreveu.
Na sequência, explicou que, caso Moraes perguntasse alguma coisa sobre ele, o assunto poderia ser tratado normalmente. A intenção, segundo a mensagem, era deixar que o encontro transcorresse sem que sua participação na organização ficasse em evidência.
O almoço durou aproximadamente quatro horas e meia.
Depois da recepção, o chef informou a Vorcaro que a missão havia sido cumprida. Fotografias também foram feitas durante o encontro.
A sequência que chama atenção
O almoço ocorreu em 30 de dezembro de 2023.
Menos de um mês depois, em 23 de janeiro de 2024, o Banco Master assinou contrato com o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes.
O contrato previa pagamentos de aproximadamente R$ 131 milhões ao longo de três anos. A Receita Federal identificou R$ 80,2 milhões em repasses realizados entre o banco e o escritório em 2024 e 2025.
O acordo previa serviços de consultoria estratégica e jurídica, incluindo atuação relacionada a procedimentos e inquéritos policiais, além de questões administrativas perante órgãos como Banco Central, Receita Federal e Cade, e processos judiciais em diferentes instâncias.
Os metadados da minuta também se tornaram objeto da investigação. Segundo a perícia da Polícia Federal, versões do documento foram editadas por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório de Viviane Barci confirmou que o ministro teve acesso à minuta e explicou que o setor de compliance o consultou, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar possíveis impedimentos legais à contratação.
Moraes nega irregularidades
O ministro Alexandre de Moraes nega ter favorecido Daniel Vorcaro ou o Banco Master.
Em manifestação apresentada ao STF, Moraes afirmou que jamais julgou processo envolvendo o Banco Master ou Vorcaro e defendeu o direito de sua mulher e de seus filhos de exercerem a advocacia.
Segundo a justificativa apresentada pelo escritório, não havia impedimento legal para a contratação porque o contrato não previa atuação no STF e, segundo a banca, Moraes nunca havia julgado causas envolvendo o banco.
A defesa de Vorcaro, por sua vez, nega que o empresário tenha cometido os crimes atribuídos a ele e contesta a manutenção de sua prisão preventiva.
Uma relação que já vinha sendo investigada
O almoço de dezembro não aparece isoladamente no material analisado pela Polícia Federal.
Investigações anteriores já haviam identificado outros contatos e encontros entre Moraes, Vorcaro e pessoas que teriam atuado como intermediárias na aproximação entre os dois.
Segundo documentos divulgados no âmbito da investigação, o ex-ministro Fábio Faria participou dos primeiros contatos e intermediou a aproximação. Há registros de outros encontros posteriores, além de mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes.
Em setembro, a Folha informou que a cronologia reunida pela PF apontava pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro, além das tratativas envolvendo o contrato milionário com o escritório de Viviane Barci.
O que está em discussão
O conjunto de informações não permite, por si só, concluir que o almoço ou o contrato tenham relação causal ou que tenha ocorrido qualquer crime por parte do ministro.
O que está documentado é a existência de uma relação próxima entre Vorcaro e Moraes, a organização de uma recepção de alto padrão pelo banqueiro para o ministro, o contrato posterior entre o Banco Master e o escritório da mulher de Moraes e a participação do próprio ministro na análise da minuta, conforme confirmado pelo escritório.
É justamente a proximidade temporal e a combinação desses elementos que colocou o episódio no centro do debate sobre a relação entre o ex-controlador do Banco Master e integrantes do círculo do ministro.
A Polícia Federal continua analisando os dados extraídos do celular de Vorcaro. O material foi incorporado à investigação que apura diferentes aspectos do caso Banco Master e já foi encaminhado aos ministros do STF conforme as determinações judiciais.
Um banquete que agora faz parte do caso Master
O almoço de 30 de dezembro de 2023 poderia ter sido apenas uma recepção privada em um hotel de luxo de Campos do Jordão.
As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, porém, transformaram aquele encontro em mais uma peça do quebra-cabeça que investigadores e autoridades passaram a examinar.
Caviar, trufas, wagyu, vinhos raros e quatro horas e meia de recepção compõem o cenário.
Mas, no centro da investigação, está algo muito maior do que o cardápio, a sequência de contatos entre um banqueiro que hoje está preso sob investigação e um ministro da mais alta Corte do país, seguida de um contrato milionário firmado com o escritório da mulher do magistrado.
É essa sequência de fatos e não apenas o luxo do almoço, que explica por que o episódio ganhou tanta repercussão.
Ricardo Lima / Fontes consultadas: Folha de S.Paulo, CNN Brasil, Estado de Minas, UOL/Agência Estado e CNN Brasil.

