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    A Voz Que Não Se Cala: A Resistência do Rádio Esportivo Brasileiro

    @ricardo_limaBy @ricardo_lima14 de fevereiro de 2026Updated:15 de fevereiro de 20261 comentário5 Mins Read
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    Radialista Esportivo Ricardo Lima. Foto: Rádio Difusora de Goiânia FM 95.5.
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    O rádio esportivo brasileiro não é apenas um meio de comunicação. Ele é memória afetiva, é companhia nas tardes de domingo e nos dias de futebol, é trilha sonora de conquistas históricas e também de derrotas que ensinaram. Durante décadas, foi o principal elo entre o espetáculo e o torcedor, sobretudo aquele mais distante dos grandes centros e das novas tecnologias. Foi o rádio que levou o futebol brasileiro a lugares onde a imagem não chegava, mas a emoção sempre esteve presente.

    Agora, mais uma vez, surgem questionamentos e ruídos que parecem colocar em xeque a atuação dos profissionais que sempre ajudaram a impulsionar o futebol nacional. A discussão recente sobre a utilização de câmeras nas cabines de rádio, durante partidas organizadas pela Confederação Brasileira de Futebol, reacendeu um sentimento antigo entre os radialistas, o de que, de tempos em tempos, tentam diminuir o espaço de quem sempre esteve ao lado do torcedor e do futebol.

    O rádio já foi “ameaçado” quando surgiu a televisão. Sobreviveu. Reinventou-se. Depois, com a internet, novamente se anunciou o fim. E ele seguiu firme, adaptando-se, criando transmissões multiplataforma, dialogando com o digital sem perder a essência. Porque o rádio esportivo não é apenas tecnologia. É linguagem. É ritmo. É emoção. E modéstia à parte nós radialistas esportivos, sabemos como levar emoção aos nossos ouvintes.

    Há um fenômeno que a prática comprova, milhares de telespectadores assistem ao jogo pela televisão, mas abaixam o volume para ouvir a narração do velho radinho. Não é nostalgia pura. É identificação. O locutor esportivo de rádio entrega emoção sem filtros. O repórter é íntimo, conversa como quem está ao lado do ouvinte. O comentarista parece sentado na mesa da cozinha, debatendo o lance com propriedade e paixão. A transmissão é vibrante, contagiante, carregada de imagens criadas pela palavra. E sinceramente a transmissão da televisão, não tem essa emoção.

    Quando surgiram informações de que até mesmo a possibilidade de mostrar imagens internas das cabines poderia ser restringida, o sentimento foi de indignação. Não pela perda de receita, porque o rádio nunca disputou o grande bolo dos direitos de transmissão. O rádio, historicamente, fica com as migalhas. Mas nunca reclamou do trabalho árduo. Com pouquíssimos equipamentos, estrutura enxuta e equipes muitas vezes reduzidas, os radialistas seguem com o mesmo objetivo de décadas atrás, levar entretenimento e emoção ao ouvinte.

    A pergunta que ecoou entre os profissionais foi simples. Em que isso alteraria a receita das entidades que promovem o espetáculo? A captação de imagens dentro das cabines, mostrando apenas os próprios profissionais, não invade direitos de transmissão, não concorre com a imagem oficial do jogo e não diminui o valor comercial do produto futebol. Ao contrário, amplia o alcance da experiência, aproxima o internauta do ouvinte e moderniza a linguagem sem ferir contratos.

    Felizmente, houve o esclarecimento. Em comunicado oficial, a Associação dos Cronistas Esportivos do Brasil (ACEB), informou que câmeras ligadas e voltadas exclusivamente para dentro das cabines de rádio estão autorizadas. Nada mudou. O que não é permitido, como sempre, é a captação de imagens do campo de jogo por veículos que não detenham os direitos de transmissão.

    O assunto foi tratado diretamente entre a ACEB e a CBF, por meio do diretor de Comunicação da entidade, Fabio Seixas, junto ao presidente da associação, Erick Castelhero. Segundo o comunicado, houve um mal-entendido na interpretação do Manual de Competições 2026, e os fiscais foram orientados para evitar novas decisões equivocadas, como as que ocorreram na terceira rodada do Campeonato Brasileiro da Série A em alguns estados.

    Permanece o que já havia sido acordado em reunião anterior entre as diretorias, ainda no início do mandato do presidente da CBF, Samir Xaud. Não há mudança nas regras sobre a atuação da imprensa nas cabines de rádio.

    Esse episódio revela algo maior do que uma simples divergência interpretativa. Ele expõe a fragilidade estrutural do rádio esportivo diante de um mercado cada vez mais concentrado e comercializado. O futebol tornou-se um produto bilionário, com direitos pulverizados, plataformas múltiplas e contratos complexos. Nesse cenário, o rádio parece pequeno. Mas é exatamente essa aparente simplicidade que o torna gigante.

    O rádio não concorre com a imagem. Ele a completa. Não disputa espaço com a televisão ou com o streaming. Ele oferece outra experiência. Uma experiência sensorial, imaginativa, emocional. Enquanto a câmera mostra o lance, o narrador traduz o sentimento. Enquanto o replay analisa o detalhe técnico, o comentarista contextualiza a história. O rádio cria cinema na mente do ouvinte.

    Como radialista há mais de 40 anos, o desabafo é inevitável, deixem o rádio trabalhar. O trabalho não incomoda ninguém. Não retira receitas milionárias. Não interfere na comercialização do espetáculo. Ao contrário, ajuda a manter viva a chama do interesse popular pelo futebol.

    O rádio esportivo sempre esteve presente nas grandes conquistas e nas grandes derrotas do futebol brasileiro. Esteve nas arquibancadas lotadas e nos estádios vazios. Esteve nas Copas do Mundo e nos campeonatos estaduais do interior. Esteve onde o torcedor estava, mesmo quando a tecnologia não chegava.

    É preciso que as decisões futuras caminhem no sentido de engrandecer todas as mídias que fazem futebol. O bolo é grande. Há espaço para todos. O rádio não quer fatia maior. Quer respeito. Quer segurança jurídica. Quer apenas continuar fazendo o que sempre fez com excelência, transformar 90 minutos de jogo em uma experiência inesquecível.

    Tentaram acabar com o rádio quando surgiu a televisão. Não conseguiram. Tentaram quando a internet apareceu. Também não conseguiram. E não será agora, em meio a mal-entendidos administrativos, que vão tirar a magia do rádio esportivo brasileiro.

    Porque enquanto houver um torcedor com um fone no ouvido, enquanto houver um narrador com a voz embargada no gol decisivo, enquanto houver emoção que não cabe apenas na imagem, o rádio continuará vivo. Reinventando-se, adaptando-se, mas mantendo intacta a sua essência: a arte de contar o futebol como ninguém.

    Ricardo Lima / Radialista Esportivo – Âncora Rádio Difusora Goiânia.

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    @ricardo_lima

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    1 comentário

    1. Luiz Gama on 15 de fevereiro de 2026 13:31

      Artigo perfeito, Ricardão! Você foi cirúrgico. Parabéns!

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