Mesmo na liderança em número de parlamentares no Centro-Oeste, bancada goiana segue sem protagonismo em Brasília; especialistas avaliam que a maioria dos deputados prioriza a manutenção das bases eleitorais
Apesar de contar com a maior bancada do Centro-Oeste na Câmara dos Deputados, Goiás acumula, ao longo das últimas legislaturas, um dado incômodo: a quase ausência em espaços importantes do Congresso Nacional. A distribuição mais recente das comissões permanentes da Câmara dos Deputados, mantida por acordo entre os líderes partidários, reforçou um cenário que já se repete há anos: nenhum parlamentar goiano à frente de colegiados relevantes e participação tímida mesmo como membro efetivo.
Para se ter dimensão da perda de protagonismo, o último deputado de Goiás a comandar uma comissão de destaque foi o vice-governador Daniel Vilela (MDB), quando presidiu a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais importante da Casa. Antes do emedebista, outro nome de peso foi o ex-deputado Jovair Arantes (Republicanos), relator do processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) e figura que chegou a ensaiar candidaturas a presidente da Câmara. Mais recentemente, o deputado Glaustin da Fokus (Podemos) integrou a Comissão Mista da Reforma Tributária, mas sem protagonismo decisório.
Para o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, a resposta passa por uma combinação de fatores estruturais e comportamentais. “Essa baixa participação e relevância dos deputados goianos reverbera um certo desinteresse em pautas de envergadura nacional, que dizem respeito à construção do Estado Nacional ou da República como um todo”, afirma. Segundo Zancopé, esse tipo de agenda exige “esforço intelectual, estudo, leitura de pareceres, reuniões e equipes preparadas”, algo que muitos parlamentares preferem evitar.
Atuação mais qualificada:
Zancopé avalia que poucos, nos últimos anos, ensaiaram uma atuação mais qualificada no debate nacional. “Quem minimamente tentou isso foi o Francisco Júnior (PSD), mas não foi reconduzido. Depois dele, o que vemos é uma participação muito mais voltada a inflar o debate ‘bolsonarismo contra petismo’”, diz, ao citar nomes como o do deputado Gustavo Gayer (PL).
Além disso, o especialista aponta que parlamentares que poderiam ocupar maior protagonismo parecem não priorizar esse caminho. “Adriana Accorsi e Rubens Otoni poderiam ter mais espaço, mas o PT goiano não é um dos mais fortes nacionalmente. O partido nunca governou o Estado, ao contrário do que ocorreu no DF ou no Mato Grosso do Sul”, analisa.
Outro ponto, segundo Zancopé, é a fragilidade da base eleitoral. “O deputado precisa ter dois pés bem firmes: um em Brasília e outro no Estado. Em Goiás, muitos não conseguem construir uma base sólida e passam mais tempo cuidando da sobrevivência eleitoral do que da política nacional”, explica. Na prática, isso resulta em parlamentares que “vão para Brasília olhando para Goiás, e não pensando o Brasil a partir de Goiás”.
Essa lógica, avalia, leva à fuga de debates importantes. “Eles evitam relatorias e comissões que exigem dedicação ou geram desgaste. Pensam ‘vou ficar longe da base’ ou ‘isso pode me queimar’. Mas política é ocupar espaço. Não se envolver é perder de largada”, dispara.
Zancopé é direto ao citar exemplos: “Ismael Alexandrino (PSD), Jefferson Rodrigues (Republicanos): que matérias relataram? Que comissões ocuparam? Fica a sensação de que estamos mandando parlamentares avessos ao debate nacional”. O historiador ressalva que o deputado Zacharias Calil (UB) aparece pontualmente em pautas da saúde e faz uma “menção honrosa” à líder da bancada goiana, deputada Flávia Morais (PDT). “Ela tenta liderar um debate mais qualificado, mas esbarra na própria legenda, o que explica a tendência de buscar outro partido.”
Bancada mais fraca dos últimos anos:
Na mesma linha, o sociólogo e pesquisador Jones Matos classifica a atual bancada como uma das mais fracas dos últimos anos. “Temos hoje uma das piores bancadas, tanto na Câmara quanto no Senado. Falta preparo intelectual para o debate nacional e internacional”, afirma. Segundo Matos, na Câmara, o problema é ainda mais evidente. “A produção é baixíssima. Estão focados apenas nas emendas impositivas”, critica.
Para Matos, a centralidade das emendas substituiu o papel político do mandato. “O que sobra é mandar dinheiro para comprar ambulância e trator, sem planejamento. Para participar de comissões importantes é preciso dominar a pauta. E a maioria deixa a desejar”, conclui. (Especial para O HOJE)
Ricardo Lima / Fonte: Redação “O HOJE”.
